Pois bem meus caros! Agora que a dama que vos escreve está desconfortável (ela sempre está desconfortável e quase nunca relaxa) e sentada à mesa, ela acende um cigarro e, por que não, começa a contar uma história? Essa história pode ser mentira, pode ser verdade, vai saber! Quem é que acreditaria nessa mocinha com cara de pretendente à junkie, que fala com a língua meio enrolada por causa do sotaque escroto e do alcool. Sua meia calça preta rsagada é típica dos seres que almejam ao glamour decadente. Na verdade nem sei se almejam, mas quem possui o quê para a decadência sabe que ela acaba acontecendo, cedo ou tarde. Não há como escapar...
Pois bem, a fumaça está esvoaçando lenta e o cigarro queima devagar. O cheiro da fumaça do cigarro dela sempre invade todo o ambiente. Os não fumantes reclamam: apaga essa porra! E claro que ela não está nem aí. Ela está prestes a contar uma história, falar da sua desilusão. Quem teria desiludido uma criatura dessas, meu deus? É que ela tem jeito de que já passou por tudo, todo tipo de esfarrapolia e tempestade e sobreviveu, sempre com o seu sorriso sarcástico e esse olhar de "não tô nem fodendo". Mas quem tem coração de carne sabe bem que as coisas não são exatemente assim... Todo ser humano sofre e conhece a dor. E chego a suspeitar que esses que são aparentemente fortes é que vivem prostrados no mar da desgraça e da melancolia.
A dama sorri e observa as pessoas falando exaltadas. Umas fazem imitações fajutas de cenas cômicas do passado. Alguém conversa sobre uma viagem a LA. Um rapazinho magricela lança olhares apaixonados para uma moça bonita, bem feita de rosto e de corpo que dança ao lado do seu namorado. A vida continua mágica e misteriosa nas lembranças e nas reflexões, bem ali dentro da mente da dama da boca carnuda e vermelha, e ao mesmo tempo no exato momento em que ela vê e sente aquele mundaréu de sensações, ela sente a vida apática. O que te falta, meu bem, o que te falta?
Ela sabe bem o que falta a ela... Quer dizer, ela acha que sabe. Ela acha que precisa falar algo mas não sabe exatemente quando e como. Faz tempo ela havia perdido a vontade de ser simpática, de criar discursos com o mínimo de coerência. Ela poderia dar um grito agora mesmo só para ver a reação de todos que a cercavam. Mas ela não quer. Ela sente que precisa compartilhar um segredo. Desse tipo de segredo que você só se sente bem quando tem ele expurgado, feito um furúnculo brilhante que só precisa de uma agulhadazinha pra deixar explodir a dor de tudo aquilo que havia se acumulado com o tempo.
Triste a dama dos segredos e dos pecados.. como ela era triste e sabia!
Frankensteins
Sala de cirurgia
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